O ocultismo de Mary Poppins

Recorte da obra: "Spirit of the Night" (1879), por John Atkinson Grimshaw (1836-1893).

O texto a seguir constitui uma das mais graves amostras da profunda influência que os maus livros podem exercer, principalmente no gênero infanto-juvenil, sobre seus leitores. Trata-se de uma breve análise do conteúdo “ufológico”, espírita e ocultista em geral que domina — intencionalmente, como será admitido — a obra mundialmente famosa Mary Poppins, da australiana Pamela L. Travers (1899 – 1996), ocultista ela própria e ex-discípula de Gurdjieff. A análise é parte do relato pessoal da escritora turca Farah Yurdözü, que registra as marcas espirituais e intelectuais que a obra lhe deixou desde a infância. Não o faz, porém, criticamente, mas em agradecimento: Yurdözü, que se refere a Travers como sua “professora cósmica” e figura decisiva no direcionamento de sua vida, credita à leitura de Mary Poppins a sublime ventura de ter-se tornado, mais tarde, uma “escritora e investigadora de assuntos ufológicos e paranormais”. O relato, portanto, é ao mesmo tempo um triste, mas real, testemunho biográfico, a indisfarçada exposição (e o louvor) de um dos mais perversos casos de subversão satânica da literatura, e o registro da alegre confissão, por parte de P. L. Travers, de ter escrito a obra precisamente com tais intenções.

Daniel Marcondes
O Alveário, 16 de setembro de 2026.



Simbolismo cósmico, abduções alienígenas, Poppins e Gurdjieff


Você já viu um alienígena com um guarda-chuva voador? Sim, já. Seu nome é Mary Poppins!


O clássico Mary Poppins foi o primeiríssimo livro que li, por volta dos meus seis anos de idade. O mundo mágico criado pela australiana Pamela L. Travers, baseado em uma filosofia cósmica, colocou-me no caminho em que estou hoje: o de uma escritora e investigadora de assuntos ufológicos e paranormais. Anos depois, numa conversa telefônica, Travers me disse que Mary Poppins não era um simples livro infantil, mas muito mais. Reencarnação, viagens interplanetárias, experiências paranormais, levitação, magia e, sobretudo, abduções alienígenas são alguns dos principais temas deste livro. De fato, as histórias de Mary Poppins podem ser facilmente interpretadas como narrações de contatos alienígenas, ligeiramente disfarçadas e escritas por uma dedicada crente na realidade das outras dimensões.

É preciso deixar claro que o livro Mary Poppins e o filme da Disney, de 1964, não têm quase nada em comum. O Mary Poppins original trata de uma misteriosa babá que vem do céu, voando com seu guarda-chuva. Ela vem quando os ventos mudam, e permanece até que mudem outra vez. Embora o primeiro livro tenha sido escrito em 19351, a história é atemporal. Os personagens principais são as crianças da família Banks: Jane, Michael, os gêmeos John e Barbara, e a bebê Annabel, dos quais Mary Poppins é a babá. Desde o primeiro momento, fica muito evidente que Mary possui dons extraordinários e habilidades paranormais, como poder voar, falar com animais, viajar no tempo, comunicar-se por telepatia, entre outros. Ela é capaz de materializar objetos como uma cama portátil, um edredom, travesseiros, botas e camisolas a partir de uma bolsa vazia. Ela pode controlar o tempo, fazendo-o passar mais ou menos rapidamente. Ela é capaz de entrar em fotografias e passar para outras dimensões, juntamente com as crianças.

No livro, Poppins é uma mulher bastante misteriosa. A autora jamais revela sua real identidade, mas nos dá muitas dicas sobre sua origem. Também no livro, ninguém sabe se Mary Poppins tem ou não uma família, e seu local de nascimento e idade permanecem desconhecidos. Parece ser uma babá dedicada, embora muito diferente das outras de sua época. Ela viaja bastante, e cada história é uma nova aventura em que Mary e as crianças fazem jornadas extraordinárias para lugares como o fundo do mar e outros planetas. Ela também nos apresenta seus amigos: personalidades muito incomuns, como figuras mitológicas, cartas de Tarô ambulantes e pessoas — e até mesmo gatos — de outros planetas.

De fato, o sistema solar, as estrelas e os planetas têm um papel muito importante no mundo de Poppins. Uma das histórias é uma perfeita — e perfeitamente disfarçada — releitura de uma típica abdução alienígena. Jane e Michael são visitados por uma estrela, que entra no quarto das crianças pela janela. Após uma breve conversa, a pequena estrela os convida para um circo no céu. Jane e Michael seguem o visitante, indo todos juntos rumo ao céu noturno. Quando olham para trás, veem a Terra do tamanho de uma bola de gude, devido à distância. Continuam subindo até chegar a uma enorme tenda de circo, onde todos os artistas são estrelas muito conhecidas, como Órion, Leão, Castor e Pólux, Saturno e Capricórnio. O sol, que é descrito como Apolo, vai até o circo e é altamente respeitado pelos demais. O convidado especial da noite é Mary Poppins, a quem todos chamam Estrela da Manhã ou Vênus.


A professora cósmica


Capa do livro Mary PoppinsAqui, o simbolismo cósmico nos é dado sob os véus de um conto de fadas. Mary Poppins é Vênus; em outras palavras, ela é a deusa que também é conhecida, em outras culturas, como Ísis, Ishtar, Diana, Artemis e Virgem Maria. Ela é uma mãe e protetora celeste. Nesta vida ou encarnação, utiliza a identidade de uma babá britânica, mas ainda é a deusa cósmica. Ela não é deste mundo, e carrega a verdade cósmica a ser transmitida aos escolhidos. Ela é, literalmente, uma professora cósmica.

O livro nos oferece uma série de aventuras relacionadas a visitantes noturnos vindos do céu. Em outra história, Jane e Michael são visitados por um ser invisível, à noite. Não podem vê-lo, mas escutam sua voz. O visitante misterioso leva-os a uma cerimônia especial em que todos os animais do zoológico da cidade estão fora de suas jaulas. Ursos, leões, pinguins, lobos, elefantes e pássaros desfrutam daquela noite singular, conversando com as crianças. Mais tarde, vão para a morada das cobras, onde o verdadeiro rei do mundo animal é uma serpente bastante velha e sábia. Lá encontram Mary Poppins como convidada de honra da Serpente Rei, a celebrar seu aniversário. Outro ponto interessante é que Mary Poppins e a Serpente Rei vêm da mesma família. Vênus (Poppins) e a Serpente Rei (a Serpente Emplumada da cosmologia centro-americana) encontram-se novamente: de acordo com as lendas da América Central, o deus Serpente Emplumada Quetzalcóatl veio de Vênus e viveu na Terra como ser humano. Como sabemos, acredita-se ainda hoje que Vênus esteja relacionado a raças alienígenas reptilianas ou serpentinas, muito populares na ufologia moderna.

Quando a primeira edição de Mary Poppins foi publicada, em 19352, não havia ufologia. Embora numerosos avistamentos de OVNIs já fossem registrados, principalmente na Europa, ninguém conhecia suas origens. Os conceitos de contatos imediatos com seres extraterrestres e abduções alienígenas ainda eram pouco definidos. Mas Pamela L. Travers já vinha enfatizando a existência de visitantes de outros planetas, como se estivesse prevendo as abduções alienígenas dos dias atuais.

Apesar de ter ficado mundialmente conhecida pela criação de Mary Poppins, Travers escreveu, antes e depois de sua obra-prima, diversos poemas, histórias e romances. Foi uma ávida pesquisadora nos campos da mitologia, misticismo, filosofia e religião, além de amiga e discípula do famoso filósofo George I. Gurdjieff. Sabe-se que estiveram juntos em Paris, na década de 30. Travers foi muito influenciada pelo trabalho de Gurdjieff, logo tornando-se uma especialista em estudos islâmicos, principalmente no sufismo. Enquanto filosofia e ensinamento místico, o sufismo se baseia na relação da humanidade com o cosmos e na busca interior de ser um com Deus, o criador. De acordo com o sufismo, o próprio universo é um ser vivo, e abrange os planetas e seus habitantes. O sufismo também foi o caminho de Gurdjieff, o que inclusive o levou à minha terra natal, a Turquia, em busca de uma antiga irmandade fundada por uma raça extraterrestre há milhares de anos, nos arredores do Monte Nemrut, localizado na região oriental da Turquia.

Pode parecer que há uma grande distância entre o sufismo e uma babá mágica que opera milagres na Londres de 1930, mas a essência da filosofia nos leva ao mesmo caminho: não estamos sozinhos no universo, e temos sido visitados pelos extraterrestres desde os tempos antigos. Eles geralmente não revelam sua verdadeira identidade, e os conhecemos por fadas, jinns, espíritos e, talvez, anjos da guarda. Por alguma razão, eles vêm com seu disfarce próprio, de modo a não revelar suas origens de outro mundo.


A vida passada de Annabel


As histórias de Mary Poppins não se limitaram apenas a visitantes de outras estrelas. Por exemplo, a bebê Annabel lembra-se claramente de sua vida passada. Ela não quer aceitar que, dentro de pouco tempo, perderá essas memórias. Este é um aspecto muito conhecido da reencarnação: bebês e crianças pequenas são capazes de recordar suas vidas passadas, mas, depois de um tempo, acabam perdendo tais lembranças.


A carta


Quando chega o momento de dizer adeus, a babá mágica se despede de maneira muito peculiar. Em uma das histórias, ela se vai em um belíssimo carrossel, que decola lentamente e segue seu curso até ser visto como um brilhante e circular Objeto Voador Não-Identificado no céu noturno.

Conforme comentei anteriormente, Mary Poppins — ou talvez Pamela L. Travers — colocou-me no caminho da busca pelo desconhecido. Os anos se passaram, e meu primeiro livro ufológico foi publicado pela mesma editora que publicou a edição de Mary Poppins que li aos seis anos de idade. Bela coincidência, não? Certo dia, senti o ímpeto e a necessidade de contatar Travers para agradecê-la por ter colocado essa grande paixão em minha vida. Em 1991, encontrei seu endereço e enviei uma carta. Tive a maior surpresa quando recebi a resposta, em sua própria caligrafia.

Pamela L. Travers contava 92 anos de idade; morava em Londres, e sua saúde não estava nada boa. Mais tarde, tivemos a mais agradável conversa telefônica. Pude agradecê-la de todo meu coração por ter-me dado a iluminação desde minha mais tenra idade. O mundo de sonhos no qual ela me colocou tornou-se, até os dias de hoje, minha realidade. Ela ficou feliz ao saber que sua mensagem havia atingido o alvo certo.

Pamela disse-me explicitamente que nunca gostou do filme, e que o livro não era de modo algum apenas um simples livro infantil. Concordei com ela e disse-lhe: “Obrigada por ter sido minha professora cósmica nesta vida”.


Por Farah Yurdözü.
Tradução de Daniel Marcondes. O tradutor é o responsável pelo portal O Alveário.
Texto original disponível em https://alienjigsaw.com/et-essays/Yurdozu-Reptilian-Snakelike-ETs-Venus-Poppins.html.


Notas:

  1. A primeira publicação, na verdade, é de 1934. — NT Subir
  2. Cf. nota anterior. — NT Subir

Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “Spirit of the Night” (1879), de John Atkinson Grimshaw (1836-1893).




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